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Textos e Contextos
do Orientalismo Português

José (Joseph) M. Benoliel (Tânger, 1857 – Tânger, 1937)

José (Joseph) M. Benoliel
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Filho de pais judeus e naturalizado cidadão português, José Benoliel distinguiu-se sobretudo como poeta, tradutor e camoniano. Para além das línguas francesa, portuguesa e espanhola, dominava o Hebraico, o Árabe, o Caldaico e o Siríaco, notabilizando-se particularmente no dialeto judeu hispano-marroquino hakitia.

Em 1859, a família Benoliel refugiou-se em Espanha por conta da guerra hispano-marroquina e terá retornado a Tânger aquando do término da guerra, em 1860. Entretanto selecionado para prosseguir os estudos liceais na École normale israélite orientale de Paris, aí estudou Francês aprofundadamente e se dedicou ao estudo aturado da Bíblia. Após terminar o liceu, lecionou nas escolas da Aliança Israelita, em Jafa (Israel), Palestina, Tânger e Mogador (atual Essaouira).

José Benoliel terá chegado a Portugal por volta de 1881, onde veio a ensinar Árabe e Hebraico no Liceu Nacional de Lisboa. Entre 1887 e 1888 terá iniciado as suas funções na direção do curso de Francês na Escola Industrial Marquês de Pombal. A 17 de março de 1888 foi autorizado pelo conselho do Curso Superior de Letras a lecionar um curso livre de língua hebraica, a título voluntário, que funcionou durante três anos, entre 1888 e 1891. Duas décadas mais tarde, a 2 de agosto de 1911, Benoliel escreveria a Bernardino Machado, seu conhecido de longa data, a solicitar-lhe a atribuição, sem concurso, da cadeira de Hebraico na então já Faculdade de Letras de Lisboa. Os seus esforços foram, porém, gorados.

Em 1892, foi publicada pela Sociedade de Geografia de Lisboa uma das suas duas contribuições para o X Congresso Internacional de Orientalistas (Lisboa), o qual não chegou, porém, a tomar lugar: Inês de Castro. Épisode des Lusiades. Traduction en vers hébreux, com prefácio de Luciano Cordeiro. Uma outra contribuição para este congresso, Fábulas de Loqmán: vertidas em Portuguez e paraphraseadas em versos hebraicos, foi feita publicar pela mesma Sociedade em 1898 enquanto parte das comemorações do Quarto Centenário do Descobrimento da Índia. Também nesse âmbito, a Sociedade de Geografia fez imprimir, do autor, tanto Lyricas de Luiz de Camões com Traducções Francezas e Castelhanas como Episodio do Gigante Adamastor – Estudo critico. Um manuscrito, pertencente ao espólio de Cordeiro preservado no Arquivo do Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa, lista cinco “Trabalhos hebraicos & arabes para apresentação no Congresso dos Orientalistas” de 1892. Embora o manuscrito não esteja assinado, e porque a caligrafia não corresponde à de Luciano Cordeiro e se assemelha à de manuscritos deixados por Benoliel, é possível atribuir-lhe a autoria do documento e assumi-lo, portanto, como o autor desses cinco trabalhos, dos quais os dois primeiros correspondem às suas efetivas contribuições para o Congresso de Lisboa. As restantes não chegaram a conhecer a luz do dia.

A 21 de janeiro de 1894, Francisco Maria Esteves Pereira assina na revista O Occidente um artigo sobre Benoliel, no qual traça a sua biografia e menciona Gonçalves Viana por, no segundo volume da Revista Lusitana (1890-1892), ter prestado tributo a Benoliel como conhecedor do Árabe, referindo-se especificamente ao curso de Árabe Vulgar que ele estabeleceu na então Academia de Estudos Livres, presidida por Bernardino Machado. Gonçalves Viana faria parte do círculo de amizades de Benoliel; foi, aliás, este linguista quem revira a sua tradução portuguesa de Fábulas de Loqmán. Ainda em 1894, Benoliel foi admitido na Sociedade de Geografia de Lisboa como sócio ordinário. A 23 de fevereiro de 1899, Xavier da Cunha, seu amigo e então conservador da Biblioteca Nacional, apresentou a candidatura de Benoliel a sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Não se conhecem quaisquer resultados dessa candidatura, pelo que se supõe não ter tido andamento. Mais tarde, em 1903, foi eleito sócio correspondente (nacional) do Instituto de Coimbra

No verão de 1904, Benoliel deslocou-se a Tânger, podendo esta deslocação estar relacionada com a sua colaboração com Ramón Menéndez Pidal (1869-1968), filólogo e historiador espanhol, no levantamento de romances hispano-judaicos de tradição oral. Juntos, Menéndez Pidal e Benoliel publicaram, em 1905, o artigo “Endencha de los judíos españoles de Tánger” na Revista de Archivos, Bibliotecas y Museos.

Em 1912, Benoliel integrou os corpos dirigentes da Comunidade Israelita de Lisboa, na qualidade de vogal do Comité, em que se terá mantido até 1916, e criou um boletim para os membros da comunidade. Moisés Amzalak figurava então como 2.º secretário do Comité. No perfil que traçou de Benoliel para a Encyclopaedia Judaica (vol. 4, 1971), Amzalak acrescenta que este também terá sido tradutor oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros (de Portugal). 

O hebraísta regressou definitivamente a Tânger em 1921, altura em que foi nomeado cônsul de Portugal para a cidade de Elksar, e presidiu, durante três anos, à Comunidade Israelita local, tendo sido ainda diretor do Seminário Rabínico em Marrocos. Benoliel foi membro correspondente da Real Academia Espanhola, em cujo boletim publicou diversos trabalhos, membro da Sociedade Camoniana e correspondente laureado da Academia (francesa) de Montreal. 

Em 1987 foi dado à estampa um artigo inédito seu, intitulado “El porvenir de Israel”, com reprodução do texto manuscrito e respetiva transcrição, na revista trimestral Escudo da Associação Israelita de Venezuela e do Centro de Estudos Sefarditas de Caracas.


Ver 
Dicionário de Orientalistas de Língua Portuguesa,
https://orientalistasdelinguaportuguesa.wordpress.com/jose-m-benoliel/

 

Bibliografia selecionada do autor

1892. Inês de Castro. Épisode des Lusiades. Traduction en vers hébreuxPrésentée à la 10ème session du Congrès international des orientalistes. Pref. Luciano Cordeiro. Lisboa: Imprensa Nacional.
1898. Episodio do Gigante Adamastor – Estudo critico. Quarto Centenário do Descobrimento da Índia. Lisboa: Imprensa Nacional/Sociedade de Geografia de Lisboa.
1898. Fábulas de Loqmán: vertidas em Portuguez e paraphraseadas em versos hebraicos. E revistas pelo Grão-Rabinno L. Wogue. Quarto Centenário do Descobrimento da Índia. Lisboa: Imprensa Nacional/Sociedade de Geografia de Lisboa. Disponível em https://archive.org/details/fabulasdeloqmn00luqm.
1898. Lyricas de Luiz de Camões com Traducções Francezas e Castelhanas. Quarto Centenário do Descobrimento da Índia. Pref. Xavier da Cunha. Lisboa: Imprensa Nacional/Sociedade de Geografia de Lisboa.
1926. Dialecto judeo-hispano-marroquí o hakitía. Boletín de la Real Academia Española XIII: 209-233, 342-393, 507-538.
1927. Dialecto judeo-hispano-marroquí o hakitía. Boletín de la Real Academia Española XIV: 137-168, 196-234, 357-373, 566-580.
1928. Dialecto judeo-hispano-marroquí o hakitía. Boletín de la Real Academia Española XV: 47-61, 183-223.

 

CS e MPP
última atualização (por MPP) em junho de 2020